Colaboração da Fonoaudióloga Lilian Cristine Ribeiro
Nascimento, CRFa. 4636, Mestre e Doutoranda em Educação pela Unicamp.
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Introdução
Denomina-se consciência
fonológica a habilidade metalinguística de tomada de consciência das
características formais da linguagem. Esta habilidade compreende dois
níveis:
1. A consciência de que a língua falada pode ser
segmentada em unidades distintas, ou seja, a frase pode ser segmentada em
palavras; as palavras, em sílabas e as sílabas, em fonemas.
2. A consciência de que essas mesmas unidades
repetem-se em diferentes palavras faladas.(Byrne e Fielding-Barnsley, 1989).
Diferentes pesquisas têm
apontado o papel do desenvolvimento da consciência fonológica para a
aquisição da leitura e escrita. Estas pesquisas referem que o desempenho das
crianças na fase pré-escolar em determinadas tarefas de consciência
fonológica é preditivo de seu sucesso ou fracasso na aquisição e
desenvolvimento da lecto-escrita (Juel, Griffith e Gough, 1986; Stanovich,
Cunningham e Cramer, 1984; Capovilla, 1999;
Guimarães, 2003). Crianças com dificuldades em consciência fonológica
geralmente apresentam atraso na aquisição da leitura e escrita, e
procedimentos para desenvolver a consciência fonológica podem ajudar as
crianças com dificuldades na escrita a superá-los (Capovilla e Capovilla,
2000).
A consciência fonológica,
ou o conhecimento acerca da estrutura sonora da linguagem, desenvolve-se nas
crianças ouvintes no contato destas com a linguagem oral de sua comunidade.
É na relação dela com diferentes formas de expressão oral que essa
habilidade metalingüística desenvolve-se, desde que a criança se vê imersa
no mundo lingüístico. Diferentes formas lingüísticas a que qualquer criança
é exposta dentro de uma cultura vão formando sua consciência fonológica,
entre elas destacamos as músicas, cantigas de roda, poesias, parlendas,
jogos orais, e a fala, propriamente dita.
As sub-halidades da
consciência fonológica são:
Rima e Aliterações
A rima representa a
correspondência fonêmica entre duas palavras a partir da vogal da sílaba
tônica. Por exemplo, para rimar com a palavra SAPATO, a palavra deve
terminar em ATO, pois a palavra é paroxítona, mas para rimar com CAFÈ, a
palavra precisa terminar somente em È, visto que a palavra é oxítona. A
equidade deve ser sonora e não necessariamente gráfica, ou seja, as palavras
OSSO e PESCOÇO rimam, pois o som em que terminam é igual, independente da
forma ortográfica.
Já a aliteração, também
recurso poético, como a rima, representa a repetição da mesma sílaba ou
fonema na posição inicial das palavras. Os trava-línguas são um bom exemplo
de utilização da aliteração, pois repetem, no decorrer da frase, várias
vezes o mesmo fonema.
Os pesquisadores Goswami
e Bryant (1997) realizaram estudos a respeito da consciência fonológica e
comprovaram que a habilidade de detectar rima e aliteração é preditora do
progresso na aquisição da leitura e escrita. Isto ocorre, porque a
capacidade de perceber semelhanças sonoras no início ou no final das
palavras permite fazer conexões entre os grafemas e os fonemas que eles
representam, ou seja, favorece a generalização destas relações.
É comum vermos crianças
de 4 ou 5 anos brincando com nomes dos colegas em jogos de rimas como:
"Gabriel cara de pastel, Fabiana cara de banana". Mesmo sem saber que isto é
uma rima, a brincadeira espontânea das crianças atesta sua capacidade de
consciência fonológica.
Consciência de palavras
Também chamada de
consciência sintática, representa a capacidade de segmentar a frase em
palavras e, além disso, perceber a relação entre elas e organizá-las numa
seqüência que dê sentido. Esta habilidade tem influência mais precisa na
produção de textos e não no processo inicial de aquisição de escrita. Ela
permite focalizar as palavras enquanto categorias gramaticais e sua posição
na frase. Contar o número de palavras numa frase, referindo-o verbalmente ou
batendo uma palma para cada palavra, é uma atividade de consciência de
palavras. Por exemplo: Quantas palavras há na frase: "O cachorro correu
atrás do gato?" Ao responder corretamente esta questão ou batendo uma palma
para cada palavra, enquanto repete a frase, a criança demonstra sua
habilidade de consciência sintática. Além disso, ordenar corretamente uma
oração ouvida com as palavras desordenadas também é uma capacidade que
depende desta habilidade.
Déficit nesta habilidade
pode levar a erros na escrita do tipo aglutinações de palavras e separações
inadequadas. Embora esses erros sejam comuns no processo inicial de
aquisição da escrita, como por exemplo, escrever: OGATO (aglutinação) ou
SABO NETE (separação), a persistência destes tipos de erros pode ser
motivada por uma dificuldade de consciência sintática. Esta habilidade
implica numa capacidade de análise e síntese auditiva da frase.
Consciência da sílaba
Consiste na capacidade de
segmentar a palavras em sílabas. Esta habilidade depende da capacidade de
realizar análise e síntese vocabular. Segundo o dicionário Michaelis, a
análise é a decomposição em elementos constituintes (neste caso, a
sílaba) e a síntese é a operação mental pela qual se constrói um
sistema; agrupamento de fatos particulares em um todo que os abrange e os
resume (aqui, a palavra).
Zorzi (2003) faz uma
análise da psicogênese da escrita relacionando-a com o desenvolvimento das
habilidades de consciência fonológica. Segundo o autor, a criança só avança
para a fase silábica de escrita (de acordo com a classificação de Emília
Ferrero), quando se torna atenta às características sonoras da palavra,
especialmente quando ela chega ao nível do conhecimento da sílaba.
Atividades como contar o
número de sílabas; dizer qual é a sílaba inicial, medial ou final de uma
determinada palavra; subtrair uma sílaba das palavras, formando novos
vocábulos, são dependentes esta subhabilidade da consciência fonológica.
Consciência fonêmica
Consiste na capacidade de
analisar os fonemas que compõe a palavra. Tal capacidade, a mais refinada da
consciência fonológica, é também a última a ser adquirida pela criança.
É no processo de
aquisição da escrita que esse tipo específico de habilidade passa a se
desenvolver. As escritas de um sistema alfabético, como o português, o
inglês e o francês, por exemplo, permitem que os indivíduos tomem contato
com as estruturas mínimas do linguagem: os fonemas; o que não é possível num
sistema de escrita silábico ou ideográfico.
Desta forma, percebemos
que um certo nível de consciência fonológica é imprescindível para a
aquisição da lectoescrita, ao mesmo tempo em que, com domínio da escrita, a
consciência fonológica se aprimora. Ou seja, estágios iniciais da
consciência fonológica contribuem para o desenvolvimento dos estágios
iniciais do processo de leitura e estes, por sua vez, contribuem para o
desenvolvimento de habilidades de consciência fonológica mais complexas.
Atividades como dizer
quais ou quantos fonemas formam uma palavra; descobrir qual a palavra está
sendo dita por outra pessoa unindo os fonemas por ela emitidos; formar um
novo vocábulo subtraindo o fonema inicial da palavra (por exemplo, omitindo
o fonema /k/ da palavra CASA, forma-se a palavra ASA), são exemplos em que
se utiliza a consciência fonêmica.
A consciência fonológica
associada ao conhecimento das regras de correspondência entre grafemas e
fonemas permite à criança uma aquisição da escrita com maior facilidade, uma
vez que possibilita a generalização e memorização destas relações
(som-letra).
Como referi
anteriormente, muitas pesquisas apontam que grande parte das dificuldades
das crianças na leitura e escrita está relacionada com problemas na
consciência fonológica. Partindo desta afirmação podemos derivar algumas
implicações educacionais.
Tais estudos sugerem que
a crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita
devem participar de atividades para desenvolver a consciência fonológica,
em programas de reforço escolar ou terapias com profissionais
especializados, como fonoaudiólogo ou psicopedagogo. Além disso, as escolas
podem desenvolver desde a pré-escola, atividades de consciência fonológica
com objetivo preventivo, a fim de minimizar as possíveis dificuldades
futuras na aquisição da escrita
(Guimarães, 2003).

Referências Bibliográficas
BYRNE, B. E FIELDING-BARNSLEY,
R. Phonemic awareness and letter knowledge in child's acquisition of the
alphabetic principle.
In Journal of
Educational Psychology, 81 (3), pp. 313-321, 1989
CAPOVILLA, A.G.S.
Leitura, escrita e consciência fonológica: desenvolvimento, intercorrelações
e intervenções. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade
de São Paulo, São Paulo, 1999
CAPOVILLA, A. G. S. e
CAPOVILLA, F.C. Problemas de Leitura e escrita. Como identificar,
preveni e remediar numa abordagem fônica. São Paulo, Memnon, 2000
GOSWAMI, U. e BRYANT,
P. Phonological skills and learning to read.
Hove, UK: Psychology
Press Ltd, 1997
GUIMARÃES, S.R.K.
Dificuldades no Desenvolvimento da Lectoescrita: O papel das Habilidades
Metalingüísticas. In Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jan-Abr 2003, vol
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JUEL, C., GRIFFITH, P.L.
e GOUGH, P.B. Aquisicion of Literacy: A longitudinla study of children in
first and second grade. In Journal of Educational Psychology, 78 (4),
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STANOVICH, K.E.
CUNNINGHAM, A.E. e CRAMER,B.B. Assessing phonological awarenwss in
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ZORZI, J. L.
Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: Questões clínicas e
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